Um Conto Dois


Noel está a solta

No dia mais quente do ano, é verão, o primeiro dia do verão mais quente dos últimos anos. O Natal está próximo, e o Natal promete ser mais quente ainda: Noel está a solta.

Como em São Paulo as casas não possuem lareira, ou pelo menos assim se espera, Noel simplesmente bate na porta. É o que faz agora. A criança lá dentro se assusta.

- Quem é? - ela pergunta.
- Oh, oh, oh! - a risada é característica. - É Papai Noel.
- Papai Noel não existe - a criança responde.
- O que? Você não acredita em mim? - Noel estava indignado.
- Não, não acredito. Vá embora.

Era preciso ser direto. Ir ao ponto que interessa.

- Eu tenho um presente pra você. Você não quer?
- Deixa ele aí na porta. Depois eu pego.
- Mas não funciona assim. Eu tenho que dar o presente pra você.

A criança lembra de algo que mamãe sempre diz.

- Não posso aceitar presente de estranhos.
- Eu não sou estranho. Sou Papai Noel.
- Não é não. Você é só um cara com uma barba de mentira.
- Deixa eu entrar e você vai poder puxar minha barba. Vai ver que ela não é falsa. E vai se surpreender pois aqui fora está o maior e mais barbudo Noel que você já viu. Abre vai.
- Tá... - a criança tem um momento de hesitação diante da possibilidade de se maravilhar com algo tão fantástico. - Não! Eu não abro a porta pra estranhos. Não conheço você.
- Sou o bom velhinho, já disse, e tenho um saco inteiro só pra você. Deixa eu entrar, oh, oh, oh - a porta é forçada. O riso também..
- Vai embora!
- Tem alguém aí com você? Tem mais alguém?
- Você não vai entrar.
- Deixa disso, eu só quero o seu bem - a porta é esmurrada.
- Pára com isso!
- Se você não for uma criança boazinha não ganha presente. Abre vai.
- Se eu deixar você entrar você vai me machucar.
- Papai Noel não faria uma coisa dessas - parecia realmente sentido, escandalizado.
- Eu sei! Só que você não é ele! Por trás dessa fantasia se esconde um homem mau e feio.
- Escuta aqui, estou perdendo a paciência! Abre a porta, vamos!
- Não!
- Você precisa receber o presente!
- Vai embora!
- Você vai receber o presente quer goste quer não!! - Noel se joga contra a porta tentando arrombá-la. - Abra! Abra!!
- Aahh! - A criança grita.

A despeito da idade do velho Noel, a porta é arrombada. Noel está transtornado, o rosto dele é uma máscara de profundo ódio. Trajava apenas uma sunga vermelha no dia mais quente do século. A sombra de suas horríveis intenções projetava-se pelo piso alcançando a pobre criança desamparada junto a um canto da sala. Eram mais de cem quilos de pura maldade se aproximando lentamente, aproveitando ao máximo o terror que inspirava os pequenos gritos que ecoavam soltas na noite. Os perversos passos prontos para trazer aquelas mãos cruéis para mais junto da criança. Mãos ansiosas, mãos muito ansiosas para tocar a criança, mãos como garras, mãos carnívoras...

- Parado aí, cara! É a polícia!
- Larga o saco, vovô!
- Esperem, vamos conversar. Eu sou o Papai Noel.
- É claro, é o que todos dizem nessa hora.

Noel é arrastado para a viatura, não quer ser preso, resiste. Recebe umas porradas na cabeça pra deixar de ser besta. Antes de entrar ainda tem tempo de se queixar:

- Ninguém acredita em mim. Ninguém mais confia em mim. Onde foi parar a inocência das crianças? A infância perdida...

Noel quase foi linchado essa noite.



Escrito por inacl às 19h32
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Conto Piegas de Natal

Papai Noel bateu na porta querendo que eu doasse brinquedos para o Natal dos pequenos necessitados. Respondi que se ele não trabalhou o suficiente para garantir o presente desses desocupados nada tinha com isso. Era sacanagem transferir essa responsabilidade para incautos que abrem a porta para o Papai Noel no meio da noite. Posso ser ingênuo, mas não burro. De modo que o senhor pegue seu saco e vá atormentar outro na vizinhança.

O velho tirou a meia do pé, ajeitou no rosto e puxou a arma do saco. "E agora, ô mané, o que me diz?", me ameaçou , tentando disfarçar a voz vacilante, própria de um senhor com mais de cem anos de idade.

- Isso é ultrajante, até onde viemos parar? - dizia eu enquanto esvaziava os dólares dos bolsos. - O que pensa que está fazendo Papai Noel? Que vergonha!

- Estou somente promovendo a redistribuição de presentes no Brasil. Sou um ladrão romântico, idealista, sem fins lucrativos, desses que só pensam no bem estar da comunidade carente.

- Mas vivemos sob um estado de direito. Roubar é crime.

- Existe crime maior do que as pobres criancinhas sem presente no Natal?

- Um crime não justifica outro.

- Não é crime. É justiça social.

- Ma quê justiça? Quê justiça?! Cometi algum crime? Que crime cometi?

- O crime da usura.

Nessa hora Papai Noel ficou violento, me deu uma rasteira e passou a me chutar no chão. Temi pelo pior, tinha algo de fanático na raiva que despejava sobre mim. Mesmo assim protestei:

- Ora, e quem disse que ser mau caráter é crime?

Ele parou de me espancar e ficou considerando a questão por alguns segundos. Aproveitei o momento para me safar.

- Eu também sou vítima dessa sociedade, pessoas como eu só são criadas em ambientes propícios aos da minha espécie. Não sou eu quem causa a miséria, é tudo culpa do sistema, a miséria é inerente ao sistema. Eu sou o carrasco apenas porque alguém tem de sê-lo. Não é algo que me agrade, mas sigo resignado o roteiro que me impuseram. Alguém tem de ser o vilão nessa história, não é?

As lágrimas surgiram naturalmente em meus olhos.

- Acha que gosto disso, Papai Noel, acha? Ser parte da elite no Brasil não é fácil, é muito... constrangedor. O sentimento de culpa é terrível. Terrível. É muito sofrimento.

O velho Noel parecia sensibilizado com o meu drama. Dava tapinhas nas minhas costas e me consolava. Aliviava ouvir as palavras reconfortantes proferidas por este santo homem. Ele era tolerante. Ele era realmente tolerante.

- O senhor não existe, Papai Noel. O senhor não existe - só conseguia dizer entre soluços.

Nós dois ficamos abraçados por um bom tempo enquanto a neve e a música natalina nos envolvia mais e mais: essa é uma época mágica, em que as diferenças são esquecidas, e todos damos as mãos celebrando a paz entre os estratos dessa sociedade geologicamente instável. Nada de abalos, pelo menos até passar a ressaca do Ano Novo. Ou seria após a ressaca do Carnaval? Ou a ressaca do...



Escrito por inacl às 08h42
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Uma perna entre nós

- Cheguei, amor.
- Você demorou.

Os dois se beijaram. São Rick e Ilse, nomes falsos para preservar os envolvidos nessa trágica história de paixões exacerbadas. Rick estava numa poltrona, a perna estendida, engessada. Ilse no colo dele, o olhar maternal.

- Como vai sua perna hoje?
- Pode perguntar a ela - respondeu Rick com naturalidade. - Às vezes acho que tem vida própria.
- Por que diz isso?
- Ela foi enfaixada por um taxidermista egípcio.
- Não seja bobo - Ilse riu.
- É verdade. Não contei tudo o que aconteceu no dia do acidente, Ilse...

O simpático rosto de Rick se transfigurou, se enrijeceu, era um rosto duro, de pedra, marcado por lembranças muito distantes, mas que na verdade ocorreram um mês atrás...

- É preciso amputá-la - disse o doutor, o serrote ganhava contornos ameaçadores agora. Um brilho sinistro perspassava o aço cuidadosamente limpo e esterilizado.
- Não! Por favor, doutor... Salve-a! Eu imploro! - o desespero tomava conta de Rick. Perder a perna era algo inconcebível, era ser metade homem. - Não posso viver sem ela... eu... Não suportaria a ausência dela.

O doutor ficou mudo, pensativo. Conhecia os riscos para seu paciente manter aquela perna desenganada. Tinha motivos para ajudar Rick, interesses ocultos. Sórdidos, é verdade, mas não menos importantes. Poderia conseguir aquilo que almejava aproveitando o momento de fraqueza do outro.

- Eu posso oferecer a vida eterna à sua perna, senhor Rick.

- O que estamos esperando, doutor? - ele agarrava o avental ensangüentado desesperadamente. O doutor foi tomado por um misterioso ar cheio de significados, uma sombra cobria seus olhos. Havia algo de sinistro no modo como pronunciou estas palavras:

- É claro que isto irá lhe custar muito caro...

- Falemos do preço depois - Rick não se importava com as consequências de sua apressada, desesperada decisão. A possibilidade de manter a perna próxima, junto ao seu corpo, eliminava qualquer sugestão de porém, qualquer dúvida quanto a trágica decisão que tomaria às cegas.

E então, a antiga arte dos ancestrais do doutor foi utilizada.

Ilse estava em pé, os braços cruzados. Olhava para Rick sem acreditar no que acabara de ouvir.

- Você está brincando comigo, não é?
- Não, Ilse - Rick respondeu com dificuldade, quase não conseguia continuar. - Ele vem cobrar a dívida hoje.

Ela mexia na cortina despreocupada. Sempre aparentava calma nestes momentos que precediam uma tempestade. Isso aterrorizava Rick. Até mais que a dívida a ser cobrada logo mais.

- Espero que isso não adie ainda mais nosso casamento.
- O preço é você! - Rick gritou, sem mais conseguir guardar o segredo que o dilacerava à dias. - Ele quer você, Ilse.

- Isso é... inacreditável - foi a única coisa que ela falou.

- Sim, eu sei. É terrível. Eu tentei convencer o doutor a desistir dessa idéia maluca, mas ele é uma pessoa doente, suja. Ele está louco por você. Mas olha, não se preocupe, vou proteger você. Mesmo com essa perna inutilizada ainda posso te proteger. Ele não pode te machucar, não vou deixar. É lógico que ele é um louco ensandecido que anda com um serrote na cinta, mas nada disso é motivo de preocupação, querida. Ele tem umas seringas com substâncias letais, mas tudo bem, não é nada que possa nos atingir sem luta. Ele é mirradinho, magro, careca, tem uma barba sinistra, um olhar penetrante e domina uma estranha arte há muito esquecida, mas e daí? O que ele pode fazer contra nós, não é? Há, há, há, passei a perna nele, hein, meu bem?

Rick não parava mais de falar tentando tranqüilizar Ilse, tentando se manter forte e esconder o próprio nervosismo. Ela simplesmente se voltou para Rick e ele pôde ver o profundo ódio estampado na face dela.

- Você me trocou por sua perna! - gritou, a dor estampada no ponto de exclamação.
- Ilse, eu... - Rick foi pego de surpresa, não esperava tal reação. Imaginava que ela se solidarizaria com seu drama. Emendou uma piadinha: - Não me diga que está com ciúmes? He, he, he... Gasp!

- Como fui idiota! - Ilse nem ouviu o que ele disse. - Por que não percebi isso antes?
- Que absurdo! - Rick estava espantado. - Você não pode estar achando que...
- As trocas de olhar, as carícias. Tudo na minha frente! - Ela continuava a falar, a desenrolar todo o novelo daquela trama sórdida.
- Você está!

- Por que não diz logo que ama a sua perna? - acusou com dedo em riste, o dedo em lança, perfurando Rick, atravessando Rick.
- Pára com isso - protestou com veemência. - Esse seu ciúmes é doentio!

E era mesmo. Ilse sempre suspeitava de Rick, era insegura, quando saía perguntava todos os passos dele, exigia um relatório que era repassado e repassado atrás de falhas, ela sabia que Rick escondia alguma coisa, eles sempre escondem. Ilse tinha que se desentender com ele para conseguir a atenção que achava necessária para se sentir amada. E essa atenção só era conseguida com Rick implorando por perdão, mesmo quando não havia o que perdoar. Era injusto com ele, sabia, mas sabia também que só assim se valorizava, ou pelo menos era isso que achava. Rick era bastante compreensivo com as neuroses dela. Achava até engraçado esse jogo, mas nunca disse isso pra ela pois provavelmente acabaria sendo espancado.

- Doentio é você me trocar por essa sua perna peluda.
- Ah, Ilse...
- Com quem mais, hein? Seu canalha! - Ilse segurava Rick pelo colarinho.
- Que é isso, querida? - Ilse estava pronta a agredi-lo em busca de uma confissão. Não seria preciso.
- É claro... o fígado!
- Fígado? - Rick não compreendia o que ela queria dizer com aquilo.
- Vai me dizer que você não se preocupa mais com ele do que com minha comida? - acusava ela.
- Hã... com ambos, Ilse, com ambos.

Mais revelações tenebrosas iam surgindo na mente dela, tudo começava a fazer sentido agora, havia muito mais coisas a explorar, a extrair.



Escrito por inacl às 08h57
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Uma perna entre nós (continuação)

- E pensa que não vi seu apêndice naquele vidro de picles?
- De formol.
- Vocês dois tomando banho... juntos! Que ingenuidade a minha.
- Como é que é? - Rick fora surpreendido - Olha, eu posso explicar...
- E o que você disse mesmo ao doutor? - Ela queria machucar, envergonhar Rick, cutucá-lo. - Não posso viver sem ela... eu... Não suportaria sua ausência. Que coisa, Rick. Patético!
- Ah, Ilse - ele tentava inutilmente se explicar. Por que não desistia? Quando ela começava a ter esses ataques de ciúmes nada a fazia parar. - Eu me entusiasmei na hora, sei lá, os dois litros de sangue a menos subiram a minha cabeça.

- E... - Ela não iria parar, tinha que prosseguir, tinha que atingir o fundo da paciência do nosso pobre e atormentado Rick.
- Pára com isso! Você sabe que te amo, Ilse. Você e eu somos um só.
- Pra mim está tudo acabado, Rick - ela tirou a aliança e jogou no chão. - Eu não conseguiria dividir você com mais alguém.

- Espere! Ilse!

Ela saiu pela porta ignorando os chamados de Rick.

- Ilse!!

Foi a última vez que os dois se falaram.

***

Em uma pequena nota no jornal a morte de Rick foi noticiada. Segundo a nota, com o fim do noivado, Rick se suicidou de maneira não ortodoxa pisoteando-se até a morte.

Quanto a Ilse, suas declarações eram de uma mulher mentalmente abalada: "Eu sabia, Rick me amava. Eles iam se separar. Mas ela não quis. Não quis!".



Escrito por inacl às 08h55
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A Incompreendida Arte do Vendedor de Facas

- Olá, posso me apresentar? Eu sou...
- Não quero saber!
BLAM!

O vendedor de facas tomava remédios controlados justamente para enfrentar situações desse tipo. Mesmo assim o descontrole era evidente no final do dia quando chegava em casa e a mulher era espancada sem motivo aparente. Com a falta do remédio no posto médico já há um mês, o vendedor era uma bomba ambulante prestes a explodir.

Na próxima porta o vendedor voltou a recitar a lenga lenga insuportável que era obrigado a repetir várias vezes ao dia, mesmo quando queria ficar trancado em casa, sozinho no mundo. O tom da fala era monótona, com um leve toque de ironia devido ao cansaço e à irritação. O texto fora decorado com muita dificuldade, a esposa o ajudara nessa tarefa. Desconhecia a maioria das palavras, então simplesmente recitava aquilo como uma prece em latim. Sabia apenas que vendia facas, era esse o seu trabalho, conhecia cada uma delas, cada uma delas era usada em um momento específico, pois cada uma delas produzia um corte único.

Algumas vezes o vendedor trocava as palavras e isso acontecia sempre com resultados desastrosos. A mulher ouvia com paciência a explicação do moço, até que inesperadamente começou a rir do seu erro. Isso enervou o vendedor. Tentou continuar, apesar da desconcentração, e as palavras saltaram em cambalhotas provocando um ataque de riso na mulher.

Completamente envergonhado, humilhado, sentindo ser agredido pelas gargalhadas, se enfureceu. Perdeu o controle.

- Não sou palhaço! - gritou puxando a faca e empurrando a mulher pra dentro da casa. - Não sou palhaço!

A mulher aterrorizada pedia calma enquanto era ameaçada com a faca de cortar pão. Iria ser esfaqueada a qualquer momento pelo vendedor ensandecido, tinha que agir depressa se quisesse sobreviver.

- Não cometa uma barbaridade! - e então a mulher teve o rompante de genialidade: - Essa não é a faca para carnes!

Surpreso, o vendedor teve que admitir com raiva que ela estava certa. Porcaria! Maldição! Praguejava. Foi até a mala procurar a faca correta.

Descobria ser um assassino metódico, desses que cumprem certos rituais no preparo da vítima. Sabia que a mulher fugira mas não conseguia deixar de seguir o ritmo imposto por sua loucura. Rituais são importantes pois realçam as pequenas ações tornando-as especiais, elas deixam de ser meramente utilitárias e ganham um sentido cósmico, dessa forma determinadas atitudes passam a ser justificáveis de acordo com a crença de cada um.

A faca correta era importante para cortar a carne de modo satisfatório. Empunhava ela com destreza, conhecia tudo sobre corte, fora açougueiro antes de se aventurar como vendedor. Troca estúpida essa, como se arrependia. Era inegável que seu talento estava nas mãos, e iria demonstrar isso agora mesmo para aquela mulher.

Correu e a encontrou trancada no quarto. Olhou pela fechadura e viu a mulher falando pelo telefone. Forçou a porta, pôs ela abaixo.

- O que quer comigo?! - a mulher gritava. - O que vai fazer?!!

- Me desculpe, sou um artista muito temperamental - e levantou a faca. - Odeio a crítica.

E tascou-lhe a facada.

O corte foi preciso, sem desperdícios. Seco, direto, era impressionante ver sua habilidade no uso da faca, a técnica que empregava era soberba. Como alguém tão iletrado, tão estúpido, tão desequilibrado produzia uma obra tão impressionante? Isso era justo? Seu talento era um dom divino? O horror que produzia possuia um caráter artístico? Seria a beleza amoral?

Diante daquela cenário somente os legistas souberam apreciar a geniosa arte do vendedor de facas.



Escrito por inacl às 19h32
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Miséria

Vamos exaltar o que há de melhor em nosso país: a nossa miséria. Deixando as expectativas de lado, sem cobranças, procurando a beleza que está em tudo, é só saber procurar, sejamos francos: a miséria tem um charme que ninguém quer experimentar.

Ser invisível em São Paulo, quem não gostaria? Expiar os outros sem ser visto. Logicamente o miserável é sempre notado e prontamente enxotado. Mas a maior parte do tempo fica ali, como mais uma estátua a ser ignorada em meio aos pombos e aos detritos. Constituem a paisagem de São Paulo, sem eles não há metrópole, sem eles as grandes cidades perdem a humanidade. E eles estão por toda parte, deitados, enrolados, sem perna, sem braço, como o tumor à mostra, e um sorriso improvável no rosto. A aparência assustadora, medonha, semi humana, esconde o que exatamente? Eu não quero saber, passo ao largo de cada um deles. Não tenho dinheiro nem tempo para pensar nessas coisas. Não é da minha conta, não é da conta de ninguém.

Então imagino que sejam livres. Quem não quer ser livre? Eles podem ir para qualquer lugar e ninguém se importa, menos na porta da minha casa. Aqui não podem ficar. A liberdade de estar fora de qualquer coisa, de qualquer lugar, de não pertencerem nem participarem, é maravilhoso. Isso implica em desconectar a mente com álcool. A dignidade do bêbado está na sua ausência. Os tombos, os xingamentos, os atropelos são tolerados, damos passagem para eles. O riso corre solto, ele nem ouve, não deve se importar porque a liberdade provoca essas reações de medo, repulsa, depressão, morte, são comuns, são normais. Quando estão sedados e sob controle ficamos tranqüilos, até chutamos alguns deles, roubamos o pouco que têm, algum orgulho, algum amor próprio.

As noites são frias e escuras na calçada. Em São Paulo as calçadas são estreitas, é fácil cair, acabar na sarjeta. Muitos estão lá, estirados, prontos para serem levados pela primeira enxurrada, para que entupam as bocas de lobo. E há essa preocupação com as enchentes somente quando o nível de água atinge o pescoço. Somente aí damos conta do lixo que existe nessa cidade. Cortem as cabeças fora para que possam boiar, diria a racionalidade governamental dos nossos dias. Admiro como as coisas são resolvidas por aqui, é um alento saber que estamos tão bem preparados para resolver os problemas que nos afligem, mesmos aqueles recorrentes a séculos.

E o problema sempre foi esse: acabar com a miséria. De uma forma ou de outra, ou seja, a nossa miséria e se possível, e se não der trabalho, a alheia.

Olhando pela janela é difícil encontrar algum horizonte. São Paulo tem tantos obstáculos, se derrubássemos alguns só conseguiríamos abrir espaço para mais favelas e cortiços, ah, ah, ah! Ora, não sejamos preconceituosos, eu não sou preconceituoso, tenho vários amigos miseráveis que me servem de álibi. Só não sei se eles me consideram amigos, se a recíproca é verdadeira. Eles só aparecem para pedir dinheiro, ah, ah, ah! Que estupidez a minha. Só assim para conseguir dormir de noite, não me sentindo responsável por nada que está aí, não me reconheço em São Paulo. Essa cidade é tudo o que não sou, só que para viver aqui é preciso dançar conforme a música. E a música não favorece meus passos mais elegantes, tropeço também. Xingo. Atropelo quem estiver na minha frente.

Andando pela rua, como sempre faço, me deparo com a cena: o lugar comum da cidade de São Paulo. Estou de bom humor. Retiro minha carteira cuidadosamente do bolso do paletó. Escolho a nota mais rôta, comida pelas traças, e a entrego à mão cheia de dedos. Ela engole rapidamente a cédula ignara como se fosse o mais saboroso manjar da face da Terra. E o era realmente, sob certas circunstâncias: miséria, fome, sabe, todas aquelas coisas sociais que utilizam a entrada de serviço nesse país.

Chego perto do mendigo que resolveu se deitar e chuto sua cabeça. Foi assim mesmo, algo totalmente destituído de sentido. Instantâneo. Quase um reflexo. Nunca havia feito isso antes e devo confessar, gostei deveras. Alguns lançam fogo nesses desocupados para ver se eles protestam e cantam o hino nacional. Não esperava isso dele, buscava somente emoção barata. Séculos de civilização correndo em minhas veias reprimindo a violência, tinha que extravasar, tinha que ser intolerante em algum momento.

A agressão ao excluído foi uma experiência enriquecedora, me sentia melhor, menos hipócrita, fazia um bem danado agir preconceituosamente. Por outro lado me indignava notar a indiferença dos passantes enquanto agredira o sem-nada. Como podiam ser tão insensíveis? Sentindo-me fortalecido pela impunidade e pelo silêncio pensei em chegar ao extremo de surrar o miserável até a morte, ali mesmo à luz do dia. Ah, a miséria. A miséria dos outros é sempre tão errada, tão suja e feia. Era sempre bom encontrar alguém tão miserável quanto eu.

Servi-me de um porrete com pregos enferrujados na ponta. Dei duas, dei três cacetadas no sujeito, sentia gratidão pelo que estava fazendo, se sacrificando por mim, devia ser canonizado. O prazer que me proporcionava era indescritível, pisar, humilhar alguém era algo saboroso. Por que não usar esse pobres coitados para divertir nosso povo tão sofrido? Era só colocar eles juntos com leões famintos numa arena high tech que a audiência estaria garantida até nos tornarmos uma nação mais justa, ou sem carne para as feras.

Foi no sexto golpe que notei: o miserável estava com uma criança nos braços, protegendo ela de mim. Fiquei transtornado, era totalmente constrangedor. Era uma cena tão insuportavelmente piegas, tão batida, tão, tão... brega, que me enfureci violentamente. Desci a pancada com todas as forças sobre os dois. Sentiriam na carne a dura crítica ao sensacionalismo, ao apelativo, ao sentimentalóide, e a exploração infantil, sobretudo. Tinham que aprender, e eu fervorosamente os ensinava. Transpirei muito com o esforço.

Os corpos inertes receberam a mensagem. Ensangüentados e gratos com o fim da exaustiva aula, eu os olhei com afeto, me sentia uma pessoa melhor, mais tolerante, pelo menos por hora. Segui meu caminho, otimista com os rumos de um povo tão aberto à educação.

Pensava em formar um grupo de educadores intolerantes. Todas as tardes nos dedicaríamos a espancar a ralé, onde reafirmaríamos nossa posição elitista e ao mesmo tempo nos exorcizaríamos da culpa pela situação abjeta em que se encontravam. Afinal os culpados são os outros, são eles próprios, os indesejáveis, os desagradáveis, os miseráveis, são eles que ocupam espaço na via pública, que nos indignam com atos poucos civilizados, são eles os brutos, os mal educados, os marginais, os descartáveis, e que devem ser excluídos, já o são, do convívio desta sociedade, são eles os culpados, não nós. Os bombeiros deveriam queimá-los, não, é algo muito radical, a polícia devia prendê-los e exilá-los na selva amazônica, lá haveria espaço para todos eles, acho.

E quer saber mais? Voltei até o mendigo desacordado e tomei todo o dinheiro dele. Não iria usar minha solidariedade e a dos outros para encher a cara, meu velho. E tome outro piparote no traseiro de troco.



Escrito por inacl às 19h05
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Diálogos Incompletos: Os Incompreendidos

- Tenho que te contar algo - a garota sentencia inesperadamente no quarto do motel.

- Tem, é? - o rapaz está completamente concentrado e ao mesmo tempo distraído.

- Sim - ela responde enquanto o rapaz continua a morder a nuca dela. Ela se revolta: - Quer parar com isso que eu estou falando sério!

- Tá bom! Que coisa é essa então? - acorda aborrecido.

- Que coisa é essa, que coisa é essa - ela imita o rapaz. Depois se queixa: - Você é tão estúpido.

- Tá, eu sou estúpido. Mas que culpa tenho eu se você me deixa assim nesse estado? Você é tão... é tão... - a garota olha cada vez mais torto pro rapaz. Ele se toca: - Tá, eu sou estúpido.

- Ótimo. Agora você vai me ouvir ou não? - pergunta num tom duro, e ao mesmo tempo maternal.

- Sou todo ouvidos - o rapaz pula ao lado dela e se coloca meio prostrado, vencido. Já que não tinha outro jeito o negócio era realizar uma pausa e estabelecer um diálogo. Nestes casos em que a relação era posta em discussão o piloto automático do rapaz era sempre acionado... automaticamente. - É, sou todos ouvidos - ele repete.

- Já estamos juntos a quanto tempo? - ela pergunta pensativa.

Xi, essa é uma questão complexa, própria para o início de uma terrível discussão. Tinha que parecer confiante respondendo da forma mais vaga possível e levar a conversa rapidamente para águas mais tranquilas.

- Quase um ano, não é? O tempo passa tão rápido e...

Ela não pareceu se importar com a falta de memória do rapaz, sua atenção está voltada  para outro ponto mais específico.

- E nesse tempo todo você nunca notou nada?

Cada vez mais era enredado por uma trama que desconhecia, e que certamente queria vê-lo liquidado, sangrando morto no asfalto. Era uma cilada, uma pegadinha, sabia disso, sabia que sempre entrava pelo cano, era assim que as coisas eram, desde priscas eras. A garota jamais entenderia a delicada situação em que se encontrava. Elas nunca entendem, mesmo frequentemente se deparando com este retrato sincero da sensibilidade masculina. Ou insensibilidade, sei lá. Resolveu cortar um dos fios da bomba relógio.

- Realmente nunca notei nada.

- Você nem sabe do que estou falando, não é?

- Pra ser sincero...

Ela se cala em muxoxos. O rapaz entra em pânico. A garota estava pensando e em se tratando do sexo oposto isso era perigoso. Tinha que fazê-la falar de qualquer jeito agora, caso contrário aquilo que estava sendo engendrado na mente dela ganharia vida própria e passaria a atormentá-lo em todas as oportunidades que surgissem no futuro. "Lembra daquela noite no motel?", calafrios perspassavam a espinha do jovem rapaz.

- Será que você pode me dizer o que está acontecendo?

O rapaz a abraça forte, e foi como abraçar uma tábua. Beija a boca dela, a boca zangada, distante, morta. Faz carinho, e dá mais beijos, e afagos, todos rejeitados com empurrões, com safanões e olhares de vidro quebrado cortante. Daí ele se cansou, pensou em tomar banho, ou pedir o jantar, ou um balde de gelo e enfiar a cabeça lá dentro, ou mesmo flertar com a atendente e...

- Eu tenho que te contar algo...

O rapaz se assusta. Ela restabelecia contato. Tinha algo a contar... Tinha até medo de perguntar o que. Mesmo assim perguntou.

- O que foi?

A garota ainda tentou testar a paciência de nosso pobre herói.

- É verdade? Você nunca notou nada?

A cara de pedra do rapaz dizia o indizível. Ela achou por bem se render.

- Aquilo que você me perguntou a primeira vez que saímos. É verdade. É verdade sim.

Silêncio.

- É... é? - concluiu o imprudente rapaz.

A noite terminou em tumulto no quarto do motel.



Escrito por inacl às 19h00
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