Um Conto Dois


Communiqué

My English is terrible, and I being a person that holds deep resentment at being forced to admit that I have gaps in my education, I come here to declare my rejection sites in foreign language. How can such addresses exist if I can barely decipher my own calligraphy? I demand that human knowledge is rebaixe up to a level that I can understand. It is not fair that only a handful of privileged enjoy the benefits offered by the sites of alien language, namely dirty jokes and videos of slutty. I also want to be part of this club, preferably attending the pool as any member. Enough to be barred by the language – by frieira(???) to admit – all content of the Internet should be immediately dublado(?) and legendado(?!!) in Portuguese.

For a more democratic internet! For a more just and sovereign internet! We must not allow the exclusion, it ends with our self-esteem.



Escrito por inacl às 18h51
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Com Legendas: Comunicado

Meu Inglês é terrível, e eu ser uma pessoa que detém profundo ressentimento em ser forçado a admitir que tenho lacunas na minha educação, eu venho aqui para declarar a minha rejeição sites em língua estrangeira. Como esses endereços podem existir se eu puder apenas decifrar minha própria caligrafia? Exijo que o conhecimento humano é rebaixe até um nível que eu possa entender. Não é justo que apenas um punhado de privilegiados gozar os benefícios oferecidos pelos sites de idioma estrangeiro, nomeadamente sujo piadas e vídeos de sacanagem. Quero também fazer parte deste clube, de preferência freqüentando a piscina como qualquer membro. Chega a ser inibido pela língua - por frieira de admitir - todos os conteúdos da Internet deve ser imediatamente dublado e legendado em Português.

Para uma Internet mais democrática! Para um tratamento mais justo e soberano Internet!! Não devemos permitir que a exclusão, que acaba com a nossa auto-estima.



Escrito por inacl às 18h50
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Sem Legendas: Comunicado

Meu inglês é horrível, e sendo eu uma pessoa que guarda profundos ressentimentos ao ser obrigado a admitir que possuo lacunas em minha educação, venho aqui declarar meu repúdio aos sítios em língua estrangeira. Como podem tais endereços existirem se eu mal consigo decifrar minha própria caligrafia? Exijo que o conhecimento humano se rebaixe até um nível que eu possa compreender. Não é justo que somente um punhado de privilegiados usufruam das benesses ofertadas pelos sítios de língua alienígena, a saber: piadas chulas e vídeos de sacanagem. Eu também quero fazer parte deste clube, de preferência freqüentando a piscina como qualquer sócio. Chega de ser barrado pela língua – pela frieira até admito – todo o conteúdo da internet deve ser imediatamente dublado e legendado em português.

Por uma internet mais democrática! Por uma internet mais justa e soberana!! Não devemos permitir que nos excluam, isso acaba com nossa auto-estima.



Escrito por inacl às 18h48
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Auto-Estima

Como todos sabem, a auto-estima é aquilo que nos diferencia dos animais irracionais e dos objetos inanimados. Sem auto-estima somos animais inanimados. Com auto-estima somos animais animados demais com nossa racionalidade, a tal ponto que podemos nos orgulhar de nossa própria mediocridade. A auto-estima sim, é o último refúgio dos canalhas. Diga não a auto-estima e seja um depressivo feliz.

Escrito por inacl às 18h45
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Os Aviões Sobre Nossas Cabeças

Diz a superstição que uma pessoa após avistar cinquenta aviões no céu teria o direito a realizar um desejo. Não sou supersticioso, nem acredito em simpatias, mas sempre procuro sair pela mesma porta que entrei, e acordo pisando primeiro o pé direito no chão. Também costumo olhar para os dois lados da rua quando quero atravessar e nunca uso tênis na praia. É desagradável. Evito viajar de avião preferindo o automóvel por achar o primeiro meio perigoso, apesar das estatísticas dizerem o contrário. Chamam isso de medo, sou só uma pessoa com manias e precavida. A morte não me assusta, as suas circunstâncias sim. Num raciocínio lógico é tolice isso, estando morto nada mais fará diferença. Estando vivo e ciente de estar neste estranho estado tenho a impressão de que o ato de pensar, em estabelecer coerência naquilo que está ao nosso redor e em nós mesmos é uma fraude, ou um mito.

Nada disso passava pela minha cabeça quando vi o quinquagésimo avião. Aliás nem tinha conhecimento desse fato. Estava eu dirigindo para o serviço quando isso aconteceu. Ignorei a importância de tal acontecimento. Desconhecia o prêmio que forças incompreensíveis me presenteavam naquele instante. Era só um avião, tinha asas e voava, nada de incomum.

O dia começava quente, parado no congestionamento, as janelas abertas inúteis pela falta de vento, o teto parecia uma chapa e minha cabeça era um ovo sendo frito. O rádio dizia coisas que desfaziam no ar, o som derretido chegava mole aos meus ouvidos aumentando o desânimo que sentia. Precisava de um carro com ar condicionado. Precisava de um refrescante sorvete.

Foi assim mesmo, a idéia de comer um sorvete surgiu inesperadamente. Poderia ter sido outra coisa, uma cerveja, uma água de côco, um cubo de gelo, o acaso escolheu para mim o sorvete. E eu, ingenuamente, em alto e bom som, desejei aquele sorvete.

Não creio em destino, apesar de ler o horóscopo todas as noites, e rir de suas previsões. Nada está escrito nas estrelas, elas não se importam conosco. Elas ficam lá no alto e não tem a capacidade de iluminar a noite, quanto mais a vida de alguém. Estrelas também caem, queimando o céu num rápido rastro. Dificilmente elas acertam a cabeça de alguém, mas quando isso acontece, a tragédia certamente é de grandes proporções.

Eu dirigia sem me preocupar quando um pedaço de borracha acertou o pára brisa do meu carro. O pneu do caminhão logo a frente estourou num estrondo violento. Quebrou o limpador como vim a descobrir depois no meio de uma tempestade. Coisas assim acontecem a todo momento, acidentes, infortúnios, morte. Não, não morri, pelo menos não agora.

O engarrafamento seria inevitável com um caminhão parado na via. Para minha felicidade e para a infelicidade da minha empresa, já que não chegarei atrasado, ultrapassei rápido o obstáculo, deixando aos outros que virão a encrenca.

Pouco posso dizer sobre o avião que avistei lá atrás. A mesma coisa sobre o caminhão. Foram incidentes tão banais mas que cosmicamente representariam, e só pude enxergar isso em retrospectiva, indícios de que algo grande e misterioso estava sendo preparado para mim. E essas coisas têm a mania de acontecer em número de três.

A janela aberta mostrou o rio e seu odor, uma mistura de vinagre e ovo podre. O calor ressaltava os tons pútridos da água, acredita-se que aquilo seja líquido mas suspeito que se possa caminhar sobre sua superfície sem afundar. O anda e pára dos carros era irritante e não ajudava ser segunda feira. Este era o último lugar que gostaria de estar. Queria estar dormindo e sonhando. Por acaso rememoro um sonho da noite passada.

Sonhei com um tapete vermelho e peludo. Isso significa que devo apostar no macaco. Não acredito nesse tipo de interpretação financeira, isso reduz a complexidade da existência a um mero jogo de representação e evocação. Mesmo assim vou apostar. Não sou viciado, apenas admito que não tenho controle sobre minha vida, mesmo porque sinto ser hoje o meu dia de sorte. Deveria ter sido.



Escrito por inacl às 19h25
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Os Aviões Sobre Nossas Cabeças (Continuação)

Enquanto estava sendo atendido pelos paramédicos, via uma luz insistente acima de todos nós. Fingi que não era comigo, sou ateu e tratar desse tipo de coisa era algo embaraçoso para mim. Tudo podia ser explicado por alucinações que acometem os acidentados em estado grave. O que eu via era fruto de um clichê barato arraigado ao meu cérebro por anos sob influência da televisão. Culpo a tevê por isso.

A casquinha de sorvete enterrado em meu peito foi o que mais preocupou os médicos. Sua retirada podia resultar em grave hemorragia que dificilmente seria estancada. O sorvete era de menta com chocolate, o meu sabor preferido. Não há nada que descreva o prazer de saborear tal delícia num dia de calor como esse. Infelizmente sua refrescância era ameaçadora, um sinal de mau agouro.

Pouca coisa a se lembrar. A chuva repentina. A falta de visão. A curva.

Sonhara com uma sala escura, meus sonhos sempre são assim, mal iluminados. Eu estava ali sem razão aparente. Desconheço o lugar, a sala vazia, eu e aproximadamente quinhentas pessoas atrás da porta. Ouço passos. A imagem de um tapete surge diante dos meus olhos. Ele é vermelho e peludo. Sinto-me mal com sua aproximação, sufocado. Acordo. Resolvo jogar no bicho. É macaco sem sombra de dúvida.

A curva assassina, empurra os carros para a contramão, é precariamente sinalizada. Nada detém seu impulso homicida, nem mesmo as leis da física, ao contrário, elas dão embasamento jurídico para que as atrocidades aconteçam. E lá vou eu de encontro ao caminhão de sorvete.

Eu odeio essa cidade e sobretudo esse carro nojento. Nem ar condicionado tem. Talvez eu seja injusto com todos por carregar esta pasta hoje aqui. São documentos que sumirão, logo estarei embarcando no avião e sumindo também pelo mundo. O desfalque será descoberto e será tarde demais. Para os outros. Estarei amanhã em alguma praia numa ilha sem nome, como eu, desfrutando os prazeres que a vida deveria proporcionar, sendo ela uma dádiva. Difícil acreditar nisso sendo assado vivo no trânsito.

Sem qualquer bagagem, só eu e a conta bancária. O dinheiro em algum lugar do mundo, sua existência comprovada pela memória de um computador, zeros e uns gravados num paraíso fiscal, é tudo em que eu preciso crer.

O céu escuresce de tarde. Saio do serviço preocupado em não perder o vôo. O canto do pneu deveria lembrar uma marcha fúnebre. Nada disso, soaria ridículo. A chuva começou a cair, e a palheta do limpador também. Voou na curva. Era impossível ver para onde eu ia. A água tranformou-se em toneladas de aço no sentido contrário. O sorvete enterrou-se no meu peito. Era possível ver meu coração se alguém se dispusesse a saborear menta com chocolate até o fim. Ali está ele em frangalhos, doce ilusão, não encontrariam nada batendo dentro do meu peito.

Lembro do tapete melhor agora, era um capacho. Odeio limpar os pés nessas coisas, um objeto criado para ser pisado e repisado. Sinto repulsa, nojo no ato. Definitivamente era macaco.

O pessoal do escritório atrasou. Sentei sozinho na sala de reunião e vislumbrei meu real potencial naquela empresa. Lacaios todos vocês. Deveria ter sido o dia mais feliz da minha vida, terminando com um refrescante sorvete. Os aviões são implacáveis. Movem misteriosos nos céus.

Os aviões se sucedem no céu. Próximo ao aeroporto meu corpo já quase sem vida. Eles passam indiferentes, eles não se preocupam com ninguém e mesmo assim não podemos escapar de sua influência. Penso nas possibilidades e nas escolhas perdidas, tudo se resume a erros e acertos. Por um tempo só isso importa. É tudo obra e culpa dos aviões. Os aviões sobre nossas cabeças.



Escrito por inacl às 19h24
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Hoje o dia está ensolarado

Hoje o dia está ensolarado. Sempre quis escrever algo assim. Nunca tive oportunidade. Pois meus dias nunca foram ensolarados, ou nunca tinham sol o suficiente para espantar a garoa, a tempestade que recaía sobre mim. Hoje o dia está ensolarado. Curioso as palavras, nada mudou em minha vida desde então, o dia continua fechado. As palavras são inócuas, ou apenas não respondo ao sentido que elas propõem. Talvez não corresponda àquilo que elas esperam de mim. O dia pode estar ensolarado e tanto faz, isso não significa que deva acreditar que seja algo bom o sol sobre a cabeça. Posso estar em um deserto, sem água, e o calor só me sirva para assar melhor minhas costas, para o prazer dos abutres.

Posso mentir escrevendo que o dia está ensolarado, e os outros acreditarem em tal insânia. Ora, é só se dispor a olhar pro lado pra ver que os dias não estão nada ensolarados. É claro que, sentindo o sol batendo na cuca, ninguém irá se dispor a encarar coisas feias que rondam o céu azul calcinha. Pra que se indispor com a cruel realidade dos outros? Que se danem todos vocês, seus infelizes. Se não têm serotonina que comam brioches, ou aceitem que o dia esteja ensolarado e me deixem em paz. Não estraguem a minha felicidade, pois acredito que o sol brilha, ele está acima de todos nós. O dia ESTÁ ensolarado. Como evitar sentir o calor que aquece o coração e tosta as idéias? Como conseguir fugir do fogo que consome a existência de todos e os reduz a cinza?

Que me importa a impermanência das coisas e a finitude da vida? Os dias são nublados, sempre. E as palavras, então? O que dizer das palavras? Elas escondem a realidade quando escrevo que hoje o dia está ensolarado, fico revoltado comigo mesmo. O que se passa na minha cabeça quando revelo esse desejo espúrio de querer escrever coisas fajutas? Pra que querer enganar os outros se eles já são enganados o suficiente? Se todos somos enganados pelas circunstâncias, por nós mesmos? E pra que querer alertar sobre isso? Pra que se preocupar? Só porque hoje o dia não está ensolarado pra mim? E daí? Que interesse isso tem para os outros?

Me deixem em paz. Vão procurar sua turma. Por que não procura alguém do seu tamanho?

Meu descontrole é evidente na forma como bato no teclado. Ele não tem culpa, sei que é um objeto inanimado, sem qualquer consciência própria e totalmente dependente da minha vontade, pelo menos enquanto o Windows deixar. É por isso que o arremesso contra a parede.

Ah é, é? Hoje o dia está ensolarado, é? Como pode estar ensolarado se sou recebido com um bafo podre toda vez que abro o jornal? Não, não sou desses que lê jornal somente quando resolvo comprar peixe. Sou desses pervertidos que encontra prazer na leitura diária de matutinos, sempre com o espírito masoquista renovado após a última página. Sempre para comentar com gosto: "olha só como as coisas são feitas neste país", "porra! que sacanagem!", "merda!", "c*!", "pqp e afins". É um privilégio a leitura do jornal, ele certamente contribui para aumentar o colorido de nosso vocabulário, assim como dos nossos argumentos contra... contra tudo, caralho.

E a culpa disso tudo? Ora, a culpa disso tudo é do jornal, é claro. Pra que precisamos de um jornal que só traz notícia ruim? Às vezes o dia pode ser ensolarado, é preciso que compreenda, às vezes o dia é sempre ensolarado para alguns, é só uma questão de acreditar, de forçar os outros a enxergarem a verdadeira verdade, omitindo os fatos paradoxais, angustiantes e desagradáveis da vida. Sinta o calor da verdade e se não quiser sentir isso, você só pode ser louco. Permita então que seja amarrado e amordaçado em praça pública, que seja queimado em uma grande fogueira, a fogueira da verdade, a pira da sanidade, e retorne ao pó, ao silêncio primordial.

Ou se torne o cisco no olho dos homens de branco e de seus pacientes febris neste mundo ensolarado.



Escrito por inacl às 18h07
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Enevoado

A névoa estava espessa e mal podia enxergar meus pés, quanto mais onde pisava. Sabia que aquela era a direção correta, cruzava com postes pelo caminho, muitos deles conhecidos. Alguns exibiam cartazes as quais agarrava para me sustentar, alguns continham as marcas de antigos encontros úmidos e malcheirosos. Agarrava para não cair, completamente torto, sem enxergar o chão, como já disse, pairando em algum lugar desconhecido. Ignorava o local em que me encontrava, agarrado ao poste, em meio à névoa. Sabia somente para onde ia, sempre foi assim, nunca me perdi, os postes me guiavam. Sei que em algum instante uma porta irá surgir e por ela adentrarei todo torto, todo enregelado pela névoa.

Escuto passos. Não sou eu, estou agarrado ao poste. E o poste está parado.

- Quem está aí? - grito para a névoa.

A resposta são passos mais próximos, correndo em minha direção.

- O que você quer? - grito alarmado.

Antes que a resposta me fosse apresentada, larguei o poste e atravessei a rua. Completamente às escuras, tateando o vazio, tropeçando desesperado, em fuga, perseguido por alguma coisa que julgava ser horrível, me aventurei na névoa.

Os passos pararam no poste atrás de mim. Os ruídos ficaram restritos ao seu entorno. Parecia que vasculhava o poste com nervosismo. Ouvi grunhidos e o som de papel sendo arrancado violentamente e comido. Acho que se acalmou com a pequena destruição que provocou, e pôde por fim se postar atento, cheirando a névoa tentando me localizar.

Os passos reiniciaram a caçada. Corri.

Corri sem saber para onde ia.

- Sai de mim, cão maldito! - gritei pra coisa que se aproximava.

Ouvi um ganido desesperado, seja lá o que aquilo queria, não queria ficar para trás sozinho.

Caí ao bater contra alguma coisa. Antes que pudesse me levantar senti os dentes destroçando minhas pernas. As garras me mantinham firmemente imobilizado, sem que pudesse me defender, só restando a horrível sensação de ser vítima de uma violência sem controle.

Por alguns instantes a névoa abrandou e pude enxergar aquilo que realmente me devorava. Foi o suficiente para constatar que sem a névoa, o horror era ainda mais insuportável.

Retornei para ela me arrastando sem as pernas.



Escrito por inacl às 18h16
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Matou a Platéia e Foi pra Tevê

O homem olhou pelo buraco da fechadura e a princípio imaginou ver seu próprio olho refletido em algum espelho encostado do outro lado da porta. O olho dele não era azul, portanto havia alguém no cômodo ao lado que resolveu espiar pela fechadura no mesmo instante em que ele fez o mesmo.

Fora a surpresa de ver e ser visto, fora a coincidência de ver e ser visto, supunha-se que o cômodo ao lado deveria estar vazio. Pois o cômodo ao lado nada mais era que seu próprio dormitório, que surpreendentemente deixara instantes atrás para ir ao banheiro e ao retornar encontrara misteriosamente trancado. Fora o curioso fato de morar sozinho, não recebera visita de ninguém nessa noite, pelo menos assim achava até aquele momento.

- Quem está aí? - era a pergunta óbvia a se fazer numa situação como essa, e diante das circunstâncias, da existência suspeita de alguém, do silêncio criminoso, esmurrou a porta e repetiu a pergunta com mais ênfase: - Quem está aí? Responda!

Seria um ladrão? Era o pensamento recorrente nestes tempos violentos. Como entrou? Pela janela? Morava no décimo andar. Pela porta de entrada? Estava chaveada e travada. Esquisito. O que alguém estaria fazendo dentro do cômodo ao lado se não era um ladrão? Perguntas complexas como essa surgem todos os dias nas grandes metrópoles, surgem nos momentos mais inesperados para testar nossa capacidade de sobreviver em ambiente tão selvagem. Ou simplesmente para testar nossa paciência.

Nunca reparou nada estranho acontecendo no cômodo ao lado? Nunca agiu como se nada estranho estivesse acontecendo no cômodo ao lado? Pois bem, o homem enfrentava uma situação do tipo, e ele achou que deveria ignorar qualquer etiqueta ou regra de conduta mais civilizada e invadiu a privacidade do seu quarto.

- Quem está aí? - repetiu e chutou a porta.

- O que quer? Pare de fazer barulho - uma voz ríspida protestou.

- Esse quarto é meu - respondeu se sentindo estúpido. E continuou com o: - Quem é você?

- Coisas estranhas acontecem aqui - a voz esclareceu, e indignado pela incômoda intromissão desse chato, gritou: - Respeite isso!

O homem ficou vermelho, mas não ruborizado:

- Quero entrar. Deixa eu entrar, agora! - E batia, e chutava, e cuspia, chegou mesmo a empregar palavras de baixo calão, a fazer gestos obscenos, só que a porta não cedeu. - Vou chamar a polícia, maldito!

E lá foi ele pegar o telefone e discar 190. Esperou e esperou. Era noite de sábado, a polícia estava ocupada com casos mais corriqueiros, sem tempo para atender uma ocorrência tão estranha.

E lá se foi o homem agarrar o machado, sabe-se lá onde no armário e com que intenções mantinha guardado essa arma tão politicamente incorreta nos dias de hoje, e se arremessar contra a porta. Abriu um buraco na madeira e meteu a cabeça nela. Assustou-se.

Foi recebido com palmas pela platéia. Estava em um palco com a luz de um holofote diretamente sobre a cabeça. O homem ficou vermelho, ruborizado, sem fala. Tinha dificuldade para se expressar em público, tremia e suava nessas ocasiões, a boca secava e sentia uma esquisita sensação de estar morrendo sem ar. Era um espetáculo patético assistir alguém com um medo assim, era constrangedor.

Houve um momento de mal estar entre ator e platéia quando o silêncio se prolongou, houve risos nervosos e houve a tentativa do homem em manter alguma dignidade diante da censura e da crítica. Mostrou-se educado e cortês:

- B-boa noite - murmurou sem que a última fileira pudesse ouvir este singelo apelo por clemência e aceitação.

O público veio abaixo, ria e vaiava o infeliz, a tal ponto que conseguiram expulsar aquela cabeça ridícula do palco. Fora! Gritavam. Booo! Emendavam. Cortem essa cabeça fora! Clamavam alguns. Isso era demais para o homem aceitar passivamente.

A porta foi arrombada com violência. O homem empunhava o machado, brandia aquela arma ameaçadora como se fosse um falo gigante. A platéia estava aterrorizada com o show, o homem conseguiu extrair de si uma atuação memorável, uma atuação realmente visceral.

Encerrado a encenação, já longe do cômodo ao lado, o homem foi pra sala assistir televisão, a coisa mais sadia que alguém pode fazer num sábado a noite.



Escrito por inacl às 18h35
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Garoto Outdoor

Vestiu a camisa como num ritual de coroação. Logo depois, a calça e o tênis. Todos estavam devidamente marcados, cada um com seu desenho característico, que diferenciava o garoto e o incluía em um determinado rebanho. Eram as marcas que o identificavam, que o conectavam com um modo de existir, que davam sentido às suas ações e suas idéias. Pois acordar é difícil, difícil e confuso, e o vazio só é preenchido vestindo a camisa. E esse manto lhe proporcionava tudo o que necessitava, ele nutria sua ânsia de viver, de existir.

Não era uma fantasia tola, era um uniforme. Dava-lhe força, e o transmutava em alguém disposto a lutar pelo ideal estampado naquele brasão. Estava disposto a morrer para garantir a existência que aquela marca lhe investia. Era alguém com ideais agora, era um exército de um soldado apenas, original, poderoso, totalmente in.

O garoto outdoor marcha pela rua exibindo suas insígnias com orgulho. Representa o ápice de sua geração, tão jovem e tão cheio de ilusões de grandeza. Marcha pela rua imbuído com fragmentos de imagens, com frases soltas, recitadas como algum tipo de encantamento desconexo, repetidas como crianças que se encantam com o som de certas palavras. Pregam peças publicitárias nos outros, sentem a sensação, o barato da coisa. Que coisa seria essa? Sei lá, não importa. Desencana, rapaz.

Tenta se diferenciar, se destacar na massa, e ao mesmo tempo ser uma figura reconhecível, aceito e admirado. Quer nos privilegiar com sua imagem diante de nós. Como um deus dever ser anunciado por onde passa, e isso não pode acontecer de uma forma vulgar, como se vendesse pamonha pelo auto falante, não, tem que ser algo mais sofisticado e colorido.

Tem que ser algo como um celular com mp3 no último volume, pendurado no pescoço, com o visor exibindo as fotos do dono, de preferência em poses heróicas, como um crachá, como uma melancia hi-tech. É claro que não podemos ser privados de imagem tão cool. E aí recebemos o tapa na cara iluminador, percebemos a sacada genial sem guarda-corpo, que nos faz cair em si, ou na rua mesmo, onde for. Como conseguimos viver todo esse tempo sem isso? Como conseguimos viver a vida sem acompanhamento de uma trilha sonora? É claro que precisamos disso, sinto arrepios no cabelo só de pensar em andar por aí ao som do Creedence. Você consegue sentir também?

E eles caminham a solta, impunes. As camisas estampam seus slogans de vida, frases curtas, toscas o suficiente para que sejam compreendidas sem esforço. Não querem fazer pensar, não querem que os outros se angustiem estabelecendo conexões neurais complexas que envolvam sujeito e predicado. Só querem o nosso amor, o nosso reconhecimento, a nossa atenção. Coitados, querem seguidores, querem fãs, querem o estrelato, o barato da coisa. Então andam por aí como trombadinhas, roubando sensações e emoções dos incautos, do seu público involuntário.

Pamonha! Pamonha! Pamonha! Lá vem o garoto outdoor descendo a rua. Rápido! Segurem os olhares e os ouvidos mais junto do corpo. E alguém: Chame a polícia!



Escrito por inacl às 08h51
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Homem Chuva encontra o Sol da Meia Noite

Era uma vez um sujeito muito infeliz com uma certa propensão para o suicídio. Tinha uma voz na cabeça dele que dizia coisas insuportáveis e que o guiavam para a morte, única forma de encontrar o alívio que tanto necessitava. Era perseguido por pensamentos aflitivos que o incomodavam nos momentos mais impróprios. Às vezes era preciso proferir palavras sem nexo para se proteger da ameaça. Da ameaça sem sentido que o colocava sempre em estado de alerta, sempre sensível a tudo aquilo que o incomodava, sensível a tudo portanto, um olhar, uma conversa, um pensamento desavisado, claramente honesto, claramente pertinente. Ficava remoendo as palavras, os sentidos que elas continham, o real significado por trás delas. E elas sempre o colocavam na defensiva, em situações vexatórias, próprias daqueles que são culpados e tentam se esgueirar na surdina, sem sucesso. O sujeito acordava sempre com a sensação de estar num aquário, flutuando preso na água suja pelas suas próprias fezes. E essa sensação de latrina persistia durante todo o dia, aonde quer que fosse ou fizesse. A única saída plausível que conseguia conceber e que fazia todo o sentido era puxar a cordinha. Os sinais rumo a esse caminho eram evidentes nos últimos tempos, tudo provava aquilo que já sabia: devia morrer.

Então, ao chegar do trabalho, abriu a janela da sala e pulou.

Fugiu.

Correu pelo quintal, subiu no muro e pulou no telhado do vizinho. Continuou correndo, tentando escapar do destino imposto por forças desconhecidas. Arrancou uma antena que encontrou pelo caminho e improvisou uma arma. Estava convencido do risco que a vida proporcionava a todos que a desafiassem. Ninguém vive impunemente. Mas não iria morrer sem lutar.

Jogou-se na piscina e escalou uma árvore. Espantou o cachorro jogando pedaços de galhos. Pulou outro muro, ameaçou as pessoas com a antena e roubou um carro. Tinha que escapar dali, sumir para não ser encontrado. Perder-se. Às vezes é preciso se perder para se encontrar, ouviu isso em algum filme barato.

Dirigiu até que a gasolina acabasse, estava no meio do mato, sozinho no escuro completo de uma estradinha de terra abandonada, e mesmo assim se sentia ameaçado. Parecia que todos conspiravam contra ele. Até ele próprio parecia disposto a se render, a desistir dessa fuga e se entregar à inconsciência completa. Nunca! E correu pelo mato escuro.

A claridade foi aumentando, a fome também. Tinha a antena, resolveu que iria caçar. Invadiu um sítio, arrombou uma porta, foi direto até a geladeira. Surpreendido pelo caseiro, se defendeu. Lutaram de forma tosca e brutal pelos congelados, e coube ao caseiro o papel de vítima. Ninguém é coitado, todos somos vítimas das circunstâncias.

Quanto mais a noite avançava, mais a mente do sujeito era iluminado por idéias grandiosas, e isso era prazeroso. Sim, tudo fazia sentido agora. Nessa viagem rumo ao auto conhecimento, nessa fuga da realidade sob o domínio das frases feitas, a auto estima do sujeito se elevava. Como não conseguira enxergar isso antes: a felicidade é só uma estado mental, não importa a motivação que leve a ela, tudo o que importa era ser feliz, e faria qualquer coisa para sustentar essa felicidade. A felicidade justifica os meios.

Era um novo homem ao sair do sítio, pronto para enfrentar o desafio que a vida impõe a todos nós, pronto para aplainar todos os conflitos e dificuldades sob uma ótica única: a sua. Na ditadura da felicidade em que vivemos não há espaço para dúvidas, ética ou remorso, é preciso ser feliz. E se as premissas deste estado mental são falsas, canalhas ou equivocadas, isto era totalmente irrelevante ao se garantir a cota diária necessária de neurotransmissores para manter a mente dopada e a vida sadia.

E o homem chuva finalmente relaxou, e viveu feliz para sempre.



Escrito por inacl às 18h46
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Temores

Quando ele saiu de casa para viver sozinho, a última recomendação que ouviu de sua mãe não dizia respeito a levar um casaco ou o guarda chuva, ou outra coisa qualquer, foi apenas: não esqueça de mim. Tal absurdo, dito assim, como quem pede cafezinho no bar, chocou o rapaz. Pensava nisso enquanto descia a rua.

Talvez a idéia de proferir tal advertência tenha sido uma última tentativa de incutir algum remorso num filho que queria abandonar a própria mãe. Abandonar era um exagero que fora levantado numa noite dessas, entre outras queixas e frágeis argumentos para fazê-lo desistir.

Na mesa estavam os cinco irmãos, e ele ao comunicar a decisão que já vinha amadurecendo algum tempo, recebeu o silêncio dos demais como um sinal de censura. Seria o primeiro a sair daquela casa após a partida do pai. Este não morrera, estava bem vivo por aí, pelo mundo, e na memória de todos que estavam ali ao redor daquela mesa.

Entendia o rancor da mãe, e o medo dela. O medo de acabar sozinha. Não se pode culpar alguém por sentir medo, ele mesmo sentia enquanto descia a rua. Mais ainda do que quando anunciou sua partida daquela casa, algo definitivo e irrevogável na mente dele.

E o silêncio que encontrou não fora tão diferente daquela estranha partida do pai numa noite de sábado. Saiu a pé, sem nada, só com o chapéu, diferente dele que carregava uma pequena mala pela rua. Deixou a mesa de jantar para trás, e todos eles, com a mãe gritando para a noite, enquanto ele se afastava e desaparecia de suas vidas.

Por onde andaria era o que algumas vezes alguém se lembrava de perguntar a si mesmo, sozinho, de preferência longe da vista de todos. Imaginavam que o pai estivesse melhor do que eles em torno daquela mesa, em silêncio profundo, constrangedor. Em torno da mãe, do rancor dela, e do medo. Do medo da solidão.

Havia o temor da partida, e o rapaz sentia a hostilidade que provinha dos que permaneceriam. Era um traidor, era como seu pai, deve sair por aquela porta. Se sair, deve sumir portanto. Deve descer a rua e esquecer de todos. Pois qualquer laço que o prenda será como uma forca a puxar seu pescoço. Que o consumirá e o culpará por tudo que certo ou errado ocorrer em sua vida no exílio. Não será exílio se não houver pátria ou mátria a abandonar.

Sendo apenas cidadão do mundo, sem raízes, somente dotado de pés que o mantenham distante, bem longe dali. Então o rapaz desce a rua, sozinho, como não poderia deixar de ser. E imagina que o mundo é maior que seus sonhos, e seus sonhos maior que sua própria vida. Medo, culpa, remorso, saudade, nada disso impede que ele desça a rua.

Nada mais impede que desça a rua.



Escrito por inacl às 08h29
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Olha: Sem as Calças!

Após anos me arriscando, aconteceu o inevitável: saí de casa sem a calça. Certamente isso algum dia teria que acontecer, sair de casa sempre envolve riscos imprevisíveis, e esquecer a calça é um deles. Só notei a ausência quando já estava dentro do ônibus: fui pegar a carteira e cadê o bolso? Só havia o vazio e o vento percorrendo minhas pernas.

Imediatamente coloquei as mãos na cabeça, uma atitude muito natural, devo ressaltar, diante das circunstâncias. Logo depois meti a mão no bolso da camisa atrás de alguns trocados. Mantive as aparências, fingi que tudo estava normal e passei pela catraca.

Não havia lugar para sentar de modo que fiquei em pé no corredor, exibindo minhas pernas muito brancas e finas, resultado de anos de malhação no escritório. Sentia vergonhas, meu rosto estava em brasas. Observava impassível o movimento lá fora, tentando transparecer alguma dignidade neste momento tão constrangedor.

Imaginava que os outros compreendessem minha situação e se compadecessem do meu infortúnio. Ora, eles avistavam uma bunda seca, achatada pela cadeira que era obrigado a sentar todos os dias. Uma bunda trabalhadora, que nunca se ausentara do serviço. Sempre ali, quietinha, honrada, cumpridora dos deveres, responsável, sem nada que desabonasse sua conduta irrepreensível. Assim como as minhas pernas cabeludas, membros respeitáveis dessa comunidade, agora expostas ao escândalo por um esquecimento tolo.

Só que eu me enganava, os rumores me eram desfavoráveis. Eram ofensivos, eram cruéis. Eram intolerantes.

Somente uma falta e todos os valores que me norteavam, assim como norteavam minhas pernas e minha bunda, de nada valiam sendo vítimas do escárnio público. Isso era justo? Já devia saber, sempre tentaram me desqualificar, sempre me perseguiram. Creio que essa era a chance que esperavam para me enquadrarem como debochado, sempre suspeitavam disso, da minha imoralidade encoberta por um fachada de decência. Agora tudo desmoronava e revelava aquilo que todos sabiam no íntimo: eu não estava acima de ninguém, estava abaixo, junto com todo mundo.

Não deveria esperar a solidariedade de estranhos, e nem mesmo dos conhecidos mais chegados. Quem esquece a própria calça em casa? Ninguém. É claro que fiz isso de propósito, foi tudo calculado para parecer um esquecimento inocente. Um ato falho diriam as mentes mais sofisticadas e não menos venenosas.

Sofria, sim, suportava as calúnias e o chiste calado. Minha honra jamais seria restituída, nada que fizesse iria reverter essa situação, nem mesmo a verdade me salvaria do linchamento moral a que era submetido. Já sedado pelo gosto amargo da difamação sistemática, provocado insistentemente por pessoas que por algum motivo obsceno queriam me destruir, não consegui mais evitar a derrocada completa de minha pessoa.

Arranquei a cueca e a ergui sobre a cabeça, gritando:

- É isso o que vocês querem?!

O ônibus se encheu de aplausos, assobios e gritaria desenfreada.



Escrito por inacl às 18h33
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A Mão no Picles

Um fato perturbador aconteceu comigo quando estive em São Paulo. Em visita a um amigo, esperando na sala sozinho, eis que noto um vidro de picles na mesa de centro. Dentro, flutuando no líquido viscoso, uma coisa: uma mão peluda com todo o aspecto de ter sido decepada.

Imediatamente tive o ímpeto de vomitar mas consegui me conter, restando apenas a vontade de encontrar alguma explicação para aquilo. Era certo que tão cruel souvenier fosse resultado de algum ato ilícito praticado a outrem, sim, isso era claro. Com que intenção macabra alguém estaria disposto a expor tal obscenidade era algo digno de um estudo, ou de internação. Creio que a violência do membro arrancado poderia revelar uma história interessante, curiosa ou mesmo divertida, mas qualquer que ela fosse não seria importante, somente restaria no final essa peça horripilante, resultado de algum ato insano e impensado.

Impensado? Me assusta a possibilidade disso aí ter sido milimetricamente estudado, o corte displicente da carne resultado de alguma vontade pré determinada para causar um efeito mais impactante. Observando melhor a mão decepada, isso não causaria espanto, se a intenção era chocar, o autor fora muito bem sucedido. Essa busca por uma explicação... talvez fosse perigoso. Talvez isso me contaminasse de alguma forma. Entender as motivações que levariam a criação de tal peça me tornariam cúmplice da loucura, eu estaria atestando a necessidade da existência de tal obscenidade. Tinha, sim, tinha que negar a possível beleza que ela possuísse. Obviamente já não analisava criticamente aquele vidro de picles. Evitava pensar, a mão peluda induzia a perdoar o crime de que fora vítima, um completo absurdo. Extrair, subtrair algo de alguém tornava-se tolerável se existisse uma intenção artística para concretizá-lo. Se existisse uma razão muito bem fundamentada.

Não! Algo em minha cabeça dizia que aquilo deveria ser destruído. Tentava me convencer disso, não estaria queimando um livro ou acertando a marreta numa escultura sem pudores, não seria um ato de censura ou de intransigência, seria uma forma de restabelecer o que havia de humano em mim mesmo. Seria uma forma de contaminar a razão com o bom senso dos sentidos.

Agarrei o pote e corri para o lavabo. Abri a tampa e despejei todo o conteúdo no vaso. Vi a mão peluda tentar inutilmente se agarrar às paredes lisas enquanto era tragado para o fundo escuro dos dejetos humanos de onde nunca deveria ter saído.

Um longo ronco pôde ser ouvido e logo depois o vaso começou a se encher de água. Aquilo transbordou e o líquido mal cheiroso inundou o piso do lavabo, já conseguindo invadir a sala pela fresta da porta. Descobri que não podia fugir do horror simplesmente pressionando um botão qualquer. As idéias tinham o incômodo hábito de boiar e de subsistir sem a necessidade de um corpo.

Abri a janela do lavabo e fugi.



Escrito por inacl às 20h08
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Vítima das Circunstâncias

Nos dias de hoje a racionalidade é um conceito um tanto quanto elástico, ou seria um tanto quanto pantanoso? Todos têm suas razões e agem de acordo com o que acreditam. A razão estaria acima do certo e do errado, e sob o seu manto, ou a sua máscara, legitima os atos de acordo com a crença de cada um.

Portanto a motivação vem em primeiro lugar, depois a razão se submete aos interesses daquele que a usa como um tempero ou uma grife, ou como pele de cordeiro. Ninguém é lobo, todos são mártires, injustiçados, perseguidos, excluídos, sem oportunidades para exercerem a republicana cidadania ou simplesmente malandros, que sempre levam vantagem em tudo, certo?

É claro que a razão, qualquer que seja ela, prevalece nos momentos mais extremos, até daqueles que transpõem o limite da irracionalidade. Todos somos racionais a priori, incitar a violência é crime, incitar a violência a quem nos oprime não é, e por aí vai. Todos são vítimas que, para descarregar a frustação ou, sei lá, por agirem como zumbis, querem produzir mais vítimas. Desejam isso. É uma necessidade atávica pela guerra, esta que é outra forma de se impor razões, razões que levam a luta para estabelecer a razão, esta característica humana que ilumina caminhos insuspeitos e inesperados.

Ora essa, quem manda estar do lado errado? Do outro lado? Quem manda estar no lugar errado? Se estivesse na praça, vinte metros adiante, nada disso teria acontecido. Quem manda estar debaixo da ponte? O complexo viário tem que ser reformado. Quem manda estar desarmado em tempos tão perigosos? Quem manda ter dinheiro? Quem manda não ter dinheiro? Quem manda acreditar em razões que são estranhas para mim? Inadmissíveis?

Nos dias de hoje, somos cada vez mais vítimas das circunstâncias. Das circunstâncias mentais de outrem.



Escrito por inacl às 21h56
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